Para as mulheres desta Latinoamérica
Penso que a militância levou minha amiga Patrícia a escrever ficção, assim como aconteceu comigo. A certa altura, deixou os romances para dedicar-se às colunas, a vida na imprensa a pegou. Na minha história, a ficção fica. Mas isto também fica para outro dia.
—Maria Valéria Rezende. Patrícia Galvão: Pagu, militante irredutível.
A Livraria Janela fica em bairro de nome adorável: Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Mais que janela, é porta que dá direto da casa à rua, envolvidas em movimento próximo as pessoas dentro da livraria e as que, de fora, passam e espiam. São comuns os lançamentos ali, que acontecem na calçada, o público acomodado em cadeiras dobráveis. Não serve para livros de famosos, não haveria onde acomodar inumeráveis admiradores e seguidoras. Como espaço alternativo é ideal, mescla irresistível de charme e resistência, qualidades que sobram nas duas mulheres presentes: Patrícia Galvão e Maria Valéria Rezende. Uma, inspiração e exemplo; outra, exemplo e inspiração, escrevendo sobre a primeira, que se foi há algumas décadas, e sobre si própria. Ambas transbordando Brasil e Latinoamérica.
A obra faz parte da coleção Brasileiras, editora Rosa dos Tempos. Maria Valéria foi convidada para escrever o perfil de Pagu, conhecida como a Musa do Modernismo brasileiro. A estratégia narrativa compreendeu pesquisa na biblioteca pessoal e memórias ditadas a um gravador, mediadas pela editora Josélia Aguiar. Em fluxo orgânico, imbricaram-se as consultas a anotações prévias sobre a vida e obra de Pagu, os caminhos da memória e vivências da própria Maria Valéria.
Freira, escritora talentosa, mulher vigorosa, mais de 80. Ao ouvir a voz dela, não se acredita na idade cronológica. Ao vê-la em energia, lucidez e rebeldia, exercício vivo da pedagogia do oprimido, também não. Em depoimento encarnado, começa com a própria infância para levantar a relação com Patrícia Galvão, a mulher cuja influência em sua vida foi decisiva.
Nascida em Santos, São Paulo, onde passou infância e adolescência, conviveu com Patrícia em sua cidade natal, para onde a jornalista mudara-se com o marido Geraldo Ferraz. Exercendo irradiação cultural sobre a juventude próxima, na indicação de leituras, filmes, peças teatrais, teve no Teatro Coliseu um espaço de encontro com a juventude, gerando nas pessoas com que convivia uma memória afetiva indelével.
Mais conhecida pela beleza, inteligência e atração que exercia sobre as pessoas, sobretudo nos eventos da arte modernista, Patrícia Galvão deixa para trás o apelido e a sedução de Pagu no perfil em que Maria Valéria reapresenta, de forma radical, a admirável mulher de cultura, cuja vida foi sempre um compromisso com as causas da justiça e da solidariedade. Jornalista, escritora, “militante irredutível”, Patrícia oferta um caminho de vida à jovem Maria Valéria, por ela inteiramente abraçado.
Com muito mais sorte que sua pedagoga natural, Maria Valéria escapou de prisões, confrontos violentos em campo e outras circunstâncias dolorosas, pródigas na vida de Patrícia. Ler (e ouvir no último 25 de junho) Maria Valéria narrando algumas dessas situações causa hilaridade e um profundo respeito ao acaso que nos rege. Ou aos anjos da guarda em tempo integral, segundo a própria Maria Valéria. Por designação do Partido Comunista, Patrícia viajou por muitos países, ocupando-se de missões específicas e sofrendo duras consequências, mas colecionando eventos de uma rara e intensa experiência humana. Dos contatos com o grupo Sur, de Jorge Luis Borges e Victoria Ocampo, à situação de madrinha involuntária da cultura da soja no Brasil, dos ofícios que a obrigavam a se proletarizar por determinação do Partido, à escrita do primeiro romance brasileiro da classe operária, Parque industrial, publicado em 1933, Patrícia foi diversidade e originalidade, em absoluta integridade e absoluta liberdade de pensamento.
Maria Valéria se considera invisível, andando pelas ruas sem ser identificada, sequer como idosa, pois os cabelos não ficam brancos. Admite lucrar muito com isso, pois ouve de tudo e sabe de mais. Resume Patrícia como educadora, e de que forma resumi-la, senão com a mesma palavra? Educadora popular, ela mesma diz.
Patrícia, Maria Valéria, mulheres desta Latinoamérica. Como Domitila Barrios de Chungara, que li na compilação de Moema Viezzer, “Se me deixam falar…”, em meus anos de formação de consciência. O impacto da leitura dos discursos e da atuação dessa mineira boliviana, no final dos anos 1980, foi muito forte e fundamental no reconhecimento de uma região histórica e cultural de que até então me chegavam fragmentos esparsos – e à qual eu pertencia.
Quase ao final de sua exposição, Maria Valéria falou de sua experiência de leitura e oficina de escrita em presídios brasileiros, inclusive em alguns de segurança máxima. Mencionou um apenado muito conhecido que não só mostrava uma leitura extraordinária dos clássicos, como à observação de Maria Valéria sobre a falta de livros no presídio, pediu uma lista e providenciou todos em pouco tempo. Impossível não relacionar com o que apresentou Fernando Cruz Kronfly, grande intelectual colombiano, em memorável palestra em um dos congressos Lectura, em Havana. Tomando por base uma entrevista de Fernandinho Beira-Mar, difundida pelos meios de comunicação, advogava uma educação dos sentimentos mais do que a do intelecto. “Mas isto também fica para outro dia.”
Por ora, reconhecer que não andaram em linha reta, essas mulheres. Nenhuma delas. Tomaram para si as curvas, características não tanto do corpo feminino, mas de seu agir no mundo, “gerado pelo movimento contínuo de um ponto no espaço”. Palavra de dicionário.
Nilma Lacerda é doutora em Letras, com pós-doutorado em História Cultural. Presente na publicação da Casa Philos, 37 escritoras neolatinas contemporâneas, escreve ficção que adultos leem, ficção que crianças e jovens também podem ler, ensaios e obras de cunho acadêmico. Foi professora da Universidade Federal Fluminense e, em sua carreira literária, tem recebido vários prêmios e distinções, dentre os quais o Prêmio Jabuti, o prêmio Rio e o selo White Ravens. Com obras publicadas na América Latina, é também tradutora e colaboradora de periódicos literários. Acesse o site oficial nilmalacerda.com.br e siga Nilma no instagram e facebook.